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Corofobia

Aí você tá na pista, tá de boa, tá tranquilo. Vê outra pessoa, só na dela. Pensa “porque não? Vamos lá, vamos pro ofício”. Tira pra dançar, ela aceita, nem se faz de difícil. “Porque não? Bora ver”. Se aproximam, com um meio sorriso que é o começo de um inteiro. E não é que essa mina tem jeito? E não é que esse cara tem ginga? Caboclo itinerante, carioca gringa. E o que era samba sem cerimônia vira xote. Dança direito, palma com palma, pendurada no cangote, no ritmo do peito, no calor da alma.

É bonito, é incrível, é ótimo. “Opa, pisei no seu pé”. “Tudo bem! Acontece! Já passa!” A coisa vai ficando séria, os dois passos já são três, é valsa. Olha pro lado tem uma pequena interessante. Teu par te puxa, esquece a outra num instante. Está tão bom, “nunca vi ninguém mexer assim, quero isso pra sempre”, que o tempo voa e, no fim, nem os dois e nenhum sente.

Que a terna noite esfria em madrugada, que um par de pés se rende à monotonia, que o seu repertório já não provoca batucada no coração que, com o teu, perdeu a sincronia. Tenta arrumar, mas tem algo diferente. “Não é você, sou eu! Vamos dar um tempo”, diz, pra piorar. Na sua mente “fodeu! Não tenho argumento”. Dois pra “lás” opostos.  Se afastam, com um meio sorriso que é o fim de um inteiro.

Vem outros sons, outros pares, outros desastres e, com eles, a certeza inútil de que eram bons, que podiam ser melhores. No fim, a gente tem a ilusão de que poderia ter feito de outro jeito mesmo sabendo que não tinha como saber, de cada passo, seu efeito. Resta apenas a esperança de que os erros virem acertos numa nova dança.

A lenda da garota que não tinha medo de ser feliz

Reza a lenda que o seguinte caso ocorreu em Muriaé – MG. Uma bela moça, de família conceituada e rica, fazendeiros locais, se apaixonara por um sujeito negro e pobre, que pediu sua mão, como era de costume, ao progenitor. Embora fosse um homem justo e fizesse gosto pelo rapaz, temendo pela reputação da filha, não concedeu. Ela relutou, mas acabou aceitando a decisão com uma condição: queria um garrote, o mais pretinho que houvesse por aquelas bandas e que fosse domado. O pai não entendeu, mas acatou, feliz pela mudança de interesse da menina.

Semanas depois, ela recebeu o animal tal qual solicitara. Amarrou uma corda em seu pescoço, levou-o até a cidade, passeando por todas ruas do lugarejo. As pessoas saiam de casa e das lojas a olhar e comentar a estranha cena. Durante todo o dia não se falava de outra coisa e, no seguinte, ela fez o mesmo, chamando igual atenção. Repetia o trajeto todos os dias, em silêncio, sem dizer a ninguém porque o fazia e comovia o povo cada vez menos. Até que, na outra semana, ninguém mais se importava com aquilo.

Foi quando interpelou novamente “viste, meu pai, alguém se incomoda com tudo que lhe parece impróprio, até acostumar-se com a ideia”. Foi convencido pela astúcia da filha e o casamento ocorreu com toda pompa. Se foram felizes? Essa parte da estória não me contaram.

Pequenos pensares dentro de um Ok

Sabe, bombom, tem distância que é amor e não desprezo. Não é simples ficar longe, também não é muito difícil. És tão pronta! Tanto que, sabe aquela vontade de ter o intangível? Não tenho essa obsessão. Você deveria ser de ninguém. Ou melhor, deveria ser, de todo mundo: patrimônio público. Boniteza que merece mais de um par de olhos.

Mas seu coração, ao menos, é particular. Nós dois sabemos que esse sortudo somente o perde se quiser e não tenho essa expectativa. Sua perseverança é admirável, quem poderia se colocar no seu caminho? É um tipo de ousadia inútil.

Conta também que sou muito preguiçoso. Estás totalmente desconfigurada. Tal acerto não é uma tarefa que me agrada, nem em hipóteses. Talvez, no fundo, eu tenha medo de que, se mexer muito, posso perder o pouco que tenho. Apaixonado, sou um tipo de Midas ao contrário.

De quando em vez, dá vontade de chegar pertinho, nostalgia. É isso. Daqui de longe, tá linda a vista. Só não pensa que é orgulho. Mais que isso, é respeito. Do seu espaço, das suas escolhas, dos seus vícios, dos seus sonhos. Pioneira do meu novo lema: crie inspectativas e se surpreenda. É desse jeito que você me rouba alguns sorrisos inesperados.

Adeus, amor

Por muito tempo não acreditei em amor e no que se podia fazer em seu nome. Delegava tudo a comportamentos e vícios. Então venho alguém e me fez aprender que ele existia, de uma forma, e amei profundamente. Aliás, amo. Que outra explicação eu poderia ter ao deixar cair uma lágrima de felicidade em ver meu bem querer feliz, e não mais angustiada, com sua nova paixão?

Senti que tive uma missão cumprida, mas não podia abandonar o posto de anjo sem se despedir da minha joia. Me causou satisfação ter podido ter essa derradeira entrevista, embora não tenha me feito entender, embora tenha sentido ainda mais afiada sua indiferença.

A satisfação virou um pouco de vazio, que virou saudade e tristeza. Em uma palavra apenas: destruído. O que sobra de mim é outra coisa diferente do que tenho sido. Não, não é um drama, não vou ver as coisas mais claras e melhores depois, já vi tudo. Tenho orgulho do meu amor, eu fiz o que tinha que ser feito, da melhor forma que eu podia e sei que fiz melhor do que a maioria das pessoas chegarão a fazer. Claro, que faltaram coisas essenciais, atitudes mais firmes, cuja falta me defendo por ter tido uma oponente muito brava em se esquivar dos intentos. Entretanto, apesar de saber que me superei, também sei que tal feito foi inútil.

Tudo meu deve ser mais importante do que qualquer pessoa agora. Parabéns pra mim? Esse deveria ser o normal? Eu preferiria nunca aprender a viver nesse mundo insensível. Já não tenho céu ou inferno, altruísmo e agora estou perdendo a empatia. Não quero ser um peixe de aquário e estou cansado do alto-mar. Não dá para se defender dos tubarões sem ser um deles.

Na verdade, eu não quero nada. O jogo já deu pra mim. Amor existe, mas não vale a pena.

Desjejum

Bom dia, amor.

Dormiste enquanto eu estava no banho e agora te vejo toda torta na cama. Te disse que não precisa tentar me esperar, mas acho lindo que o faça. Não vou te despertar, são quase duas da manhã e levantaremos às 7, então te escrevo. Essa rotina de trabalhar, viajar, estudar, viajar, dormir só vale a pena pelo carinho dos teus lábios todos os dias pela janela quando me vou e me recebendo à porta quando chego e otras cositas más.

Sempre queres saber do meu dia, não deixarei este débito em atraso, embora não tenha muito o que dizer: alguns clientes chatos, dois professores desestimulantes e um bom tempo de espera ao ônibus. Pelo menos pude cochilar, o que tem se tornado frequente e automático. Me conta sobre o seu na hora do almoço?

Alguma coisa eu sei! Vi que legendaste novos episódios do teu animé favorito para assistirmos juntos. Vamos ver um filme à noite? Deixei aberto o site do cinema, vai dando uma olhada e decidimos quando eu voltar. Se preferir, pedimos comida e vemos alguns dos DVDs antigos. Pelo menos não vou estragar nenhum final que você já não conheça.

Bom, agora vou deitar ao teu lado, fazer as vezes de Morfeu. Logo vamos nos acordar, nos amar,  nos atrasar e você vai correr para disfarçar tua beleza na caixa de maquiagem. Enquanto acha esta carta, lê e começa a rir bobamente, estou na cozinha terminando o café e te esperando para mais uns beijos.

Te amo. Vem logo!

Semaninha

Domingo

– Oi, meu amor! Estava com saudades.

– Oi, bombom. Eu também estava!

– Só chamei para dizer um “oi” mesmo, tenho que dormir.

– Tão cedo?

– É, amanhã acordo cedo…

– Tá bom.

Segunda

– Oi, bombom. Sonhei contigo!

– O que sonhou?

– Foi meio louco.

– Entendi.

– Tô com vontade de te mimar hoje!

– Tá bom.

Terça

– Hummmmmm.

– Que foi?

– Nada.

– Tem certeza?

– Foi boa a conversa com a sua amiguinha?

– Ah, bombom! Nem falei com ela direito.

– Tá bom.

Quarta

– O que foi aquilo?

– Desculpa…

– Ciúmes?

– Não tenho ciúmes dele.

– O que foi aquilo, então?

– Não vai voltar a acontecer.

– Você tem que entender que…

– Ok, foi ciúmes.

– Tá bom.

Quinta

– Precisamos ter uma longa conversa.

– Quer café, bombom?

– Acho melhor a gente se afastar.

– Tá bom.

– Tá bom.

Sexta

– Foi fácil, né?

– O que foi fácil?

– Dizer “tá bom”, sem nem perguntar o motivo…

– Me pareceu óbvio.

– Fiquei triste porque você nem se importou.

– É isso que você pensa?

– É isso que você me passou.

– Eu – um minuto – não sei explicar.

– Tá bom.

Sábado

“Bom dia, bombom.

Escrevo esse bilhetinho só para dizer que sentirei sua falta. Não quero te fazer refém das milhares de palavras que fazem fila para sair da minha boca sempre que estou contigo. Não falta paixão, apenas vivo ainda meu próprio cativeiro. Eu confio nos teus motivos. Te quero muito bem, tá bom?”

Ps: eu te amo

Ontem alguém me perguntou se eu já tinha visto o filme P.S. I love you e, como a resposta foi negativa, me fez um resumo da história, que trata de uma mulher que recebe cartas do marido morto. Adorei a ideia por 10 minutos. A vida não cansa de ser irônica e entrei de “acidente” no meu hotmail que não uso como e-mail e já estava deslogando quando vi em meio a dezenas de SPAM um nome conhecido. Meses de vigilância me deixaram craque em ver seu nome em tudo quanto é lugar, até onde não existe e lá estava, uma carta antiga do meu amor que, apesar de não estar morto, já não quer existir na minha vida.

“Eu ia te mandar por uma carta, mas eu senti uma urgência tão grande de falar que precisei mandar por aqui.”. Eu também precisava escutar ou ler tudo o que estava nela. O único “te amo” que eu quisera ouvir por meses estava nela. Isso me deixou tão tonto que eu perdi a noção do tempo. Não lembro mais onde estávamos em 16 de novembro e costumo saber tudo.

Não sabia o que era chorar nesse ano e chorei cada palavra lida e continuei assim toda a noite e enquanto escrevo esse desabafo. Não quero falar com ninguém sobre isso, então, meu amigo, não me pergunte nada e finja não saber de nada. Eu estou bem. Triste porque me trouxe lembranças, uma delas a da perda. Alegre por ler algo “novo”, por saber de coisas boas. Com raiva por que só li agora.

Não que as coisas seriam diferentes se eu tivesse lido antes. Ela não tem a menor ideia do que me faz mal, e com a desculpa de não me fazer mal, me fazia parecendo que por querer. Tenho um problema muito grande com esperar que as pessoas sejam lógicas. Não me conformo de alguém não me querer e mesmo assim ter ciúmes de uma amizade, deixar de falar comigo por isso. A mesma pessoa que dias depois de terminarmos já estava fazendo declarações de amor à outra. Não lembro disso com mágoa, apenas invoco, em vão, a coerência.

Taí nossa maior diferença. Enquanto eu vejo e valorizo o que sobra, ela se prende ao que falta. Amor perfeito não existe, é uma ilusão. Não daríamos certo porque fizemos coisas erradas que não tem conserto, definitivamente não é esse o problema. Não daríamos certo porque ela acha que pode ter coisa melhor, simples e reto. Ela teria que passar ainda por todas as pessoas canalhas que falta para amadurecer e eu não vou esperar por isso, não tenho esse tempo.

A vida esse ano está decidida a debochar da minha cara. Antes me traz de volta a coleguinha da oitava série para quem eu mandava cartas. E ela tinha que me dizer que as guardou por 12 anos e que sempre que estava triste as lia porque sentia o carinho delas, antes de sumir de novo. Não quero crer que eu só sirva para deixar as pessoas bem quando elas estejam na pior. Enfim, eu devo ter muita culpa nisso e vou refletir e tentar aprender com tudo isso. Isso me afeta porque ainda sinto falta. Por enquanto, vou para a minha caverna antissocial por umas horas ou uns dias. Beijos, não me liguem.

Ps: te amo também

Contrato

Era uma vez um casal que se conheceu havia poucas semanas e estavam encantados um pelo outro.

– Você é tão maravilhosa!
– Você que é!
– Quer me namorar?
– Porque eu deveria?
– Porque te amo, muito!
– Eu também te amo, mas até quando?
– Não sei.
– Isso me dá medo…
– Não tenha medo, não quero fazer nada para te machucar.
– Mas e quando acabar o amor?
– Eu te digo ou você me diz e terminamos.
– Parece uma boa ideia…
– Claro que é, a gente se dá tão bem!
– Pois é, então, somos namorados?
– Sim! O que você acha de seis meses?
– Seis meses me parece ótimo, posso ser fiel por seis meses!
– Eu também e, daqui seis meses decidimos se podemos ser fiéis por mais um ciclo de seis.
– E podemos ver se as coisas ruins ainda importam menos do que as boas!
– E se o sexo continua tão bom e suficiente.
– Então, temos um contrato! Vem cá, vamos selar isso.


– Minha linda, tem alguma dúvida?
– Bem… O que você pensa sobre ter filhos?
– Podemos falar disso daqui uns 3 ou 4 ciclos?
– Tá bom. Vamos ver um filme?
– Vamos!

Alguns meses depois, moravam juntos. Falaram sobre filhos na segunda renovação de contrato, tiveram um na sétima. Na nona, decidiram apimentar a relação com terceiros. Nunca se casaram. Viveram felizes juntos por 12 anos e meio.

Amar ou depender?

Encontrei várias versões desse conto em espanhol, não estou certo se é a versão oficial. Reproduzirei a tradução de uma delas, já que me pareceu uma ótima reflexão.

Contam que uma bela princesa estava procurando alguém para casar. Aristocratas e senhores ricos tinham vindo de todas as partes para oferecer seus presentes maravilhosos. Jóias, terras, exércitos e tronos faziam parte das propostas para conquistar aquela criatura especial.

Entre os candidatos, um jovem plebeu que não tinha mais riqueza do que seu amor e perseverança. Quando chegou a hora de falar, disse: “princesa, eu vos amei a minha vida toda. Como eu sou um homem pobre e eu tenho que lhe dar tesouros, eu ofereço o meu sacrifício, como prova de amor… Ficarei cem dias sentado sob sua janela, sem mais alimentos que a chuva e nenhuma roupa além da que eu estou vestindo… Esse é o meu dote…”. A princesa, comovida por esse gesto de amor, decidiu aceitar: “Você vai ter sua chance, se passar no teste irá desposar-me”.

Assim se passaram as horas e os dias. O pretendente estava sentado, suportando os ventos, neve e noites congelantes. Sem piscar, olhando fixamente para a varanda de sua amada, o corajoso mancebo se manteve firme em seu empenho sem falhar. Ocasionalmente, a cortina da janela real permitia vislumbrar a figura esbelta da princesa, que, com um gesto nobre e um sorriso, aprovava a tarefa. Tudo estava indo de maravilhas. Até mesmo alguns otimistas haviam começado a planejar as festividades.

Quando chegou o dia 99, os moradores da área tinha vindo a incentivar o futuro monarca. Tudo era festa e alegria, até que de repente, quando faltava pouco tempo para o fim do prazo, para o espanto do público e perplexidade da princesa, o rapaz se levantou e sem explicação, moveu-se lentamente para longe do lugar. Algumas semanas mais tarde, enquanto caminhava por uma estrada, solitário, uma criança da região o alcançou e perguntou a queima-roupa: “O que aconteceu? Você estava a um passo de alcançar a meta!  Por que você perdeu essa oportunidade? Por que você se retirou?”

Com profunda consternação e algumas lágrimas mal disfarçadas, disse em voz baixa: “Ela não me poupou um dia de sofrimento… Nem mesmo uma hora… Ela não merecia o meu amor…”.

Amar ou depender? O merecimento nem sempre é vaidade, mas dignidade. Quando damos o melhor de nós para outra pessoa, quando decidimos partilhar a nossa vida, quando abrimos todo o nosso coração e desnudamos cada centímetro da alma, quando perdemos a vergonha, quando os segredos deixam de ser, pelo menos necessitamos compreensão. Menosprezar, ignorar ou desconhecer friamente o amor que damos de mãos cheias é falta de consideração ou, no melhor dos casos, leviandade.

Quando amamos alguém que, além de não retribuir, despreza nosso amor e nos fere, estamos no lugar errado. Essa pessoa não é digna de nossa afeição. Uma coisa é certa: se você não se sentir bem em algum lugar, junte suas coisas e saia. Ninguém ficará tentando agradar e se desculpando por não ser como queremos. Não tem volta.

Em qualquer relacionamento que tenhas, não te merece quem não te ame, muito menos quem te feriu.

Jorge Bucay

Quem sabe um dia

Odeio essa sua mania de desaparecer assim da minha vida e ficar semanas e semanas sem dar notícias. Eu fico aqui sem saber onde está, se está bem, se algo de grave aconteceu ou se algo de muito bom se realizou. Não responde os meus e-mails e quebra o chip do celular só pra ninguém te encontrar. Muda de vida em pouco tempo e quando volta, volta cheio de histórias pra contar. Vive um novo personagem a cada dia de sua vida, a cada dia que for preciso. O que você sempre esquece é que comigo não precisa! Não precisa nenhum personagem pra esconder quem você é, não precisa esconder a sua vida achando que eu vou ter 49.754.899 facas nas minhas mãos para te julgar. Eu nunca vou fazer isso com você. E o pior que seja pra você viver essa vida, você vive. Eu não deveria acreditar em nada do que você fala, mas lá no fundo eu ainda acredito que você consegue ser sincero, pelo menos uma vez. Não sei se é me iludir demais mas quem sabe um dia você consegue deixar eu cuidar de você sem se preocupar com o mundo. Quem sabe um dia, quem sabe…

Clara Lisboa Furtado