Desjejum

Bom dia, amor.

Dormiste enquanto eu estava no banho e agora te vejo toda torta na cama. Te disse que não precisa tentar me esperar, mas acho lindo que o faça. Não vou te despertar, são quase duas da manhã e levantaremos às 7, então te escrevo. Essa rotina de trabalhar, viajar, estudar, viajar, dormir só vale a pena pelo carinho dos teus lábios todos os dias pela janela quando me vou e me recebendo à porta quando chego e otras cositas más.

Sempre queres saber do meu dia, não deixarei este débito em atraso, embora não tenha muito o que dizer: alguns clientes chatos, dois professores desestimulantes e um bom tempo de espera ao ônibus. Pelo menos pude cochilar, o que tem se tornado frequente e automático. Me conta sobre o seu na hora do almoço?

Alguma coisa eu sei! Vi que legendaste novos episódios do teu animé favorito para assistirmos juntos. Vamos ver um filme à noite? Deixei aberto o site do cinema, vai dando uma olhada e decidimos quando eu voltar. Se preferir, pedimos comida e vemos alguns dos DVDs antigos. Pelo menos não vou estragar nenhum final que você já não conheça.

Bom, agora vou deitar ao teu lado, fazer as vezes de Morfeu. Logo vamos nos acordar, nos amar,  nos atrasar e você vai correr para disfarçar tua beleza na caixa de maquiagem. Enquanto acha esta carta, lê e começa a rir bobamente, estou na cozinha terminando o café e te esperando para mais uns beijos.

Te amo. Vem logo!

Eclipse

Eu tive um sonho e era tão real
Em que o amor sobrepunha o mal
Do qual padeço e que quero vencer
A dor de amar e não poder te ter

Tinha uma caixa de fantasia
Era grande, mas estava vazia
O meu destino é triste sem você
E o céu azul começou a escurecer

A lua me tocava
Era fria e brutal
Mas me livrava
Da solidão total

Passei anos e eras
Com a companheira indesejada
Lutei contra o que tinha
E, como tu, morri na estrada

Virei sol e percebi
O meu erro cometido
O astro vil, desprezado
Era o meu amor querido

Te persegui e me perseguias
Mas não ocorreu o encontro esperado
Pois quando eu vinha
Você já havia ido

Quando acordei
Não acordei
E me vi assim
Sem te ver

Quando acaba

Estava escrevendo uma postagem que ia ficando péssima cada vez que mexia nela. Foi aí que achei esse texto do Arnaldo Jabor, que diz muito melhor 99% do que eu queria dizer:

“Sempre acho que namoro, casamento, romance, tem começo, meio e fim. Como tudo na vida. Detesto quando escuto aquela conversa:

– Ah, terminei o namoro…

– Nossa, estavam juntos há tanto tempo…

– Cinco anos…. que pena… acabou…

– é… não deu certo…

Claro que deu! Deu certo durante cinco anos, só que acabou. E o bom da vida, é que você pode ter vários amores. Não acredito em pessoas que se complementam. Acredito em pessoas que se somam. Às vezes você não consegue nem dar cem por cento de você para você mesmo, como cobrar cem por cento do outro?

E não temos essa coisa completa. Às vezes ela é fiel, mas é devagar na cama. Às vezes ele é carinhoso, mas não é fiel. Às vezes ele é atencioso, mas não é trabalhador. Às vezes ela é muito bonita, mas não é sensível. Tudo junto, não vamos encontrar. Perceba qual o aspecto mais importante para você e invista nele.

Pele é um bicho traiçoeiro. Quando você tem pele com alguém, pode ser o papai com mamãe mais básico que é uma delícia.E às vezes você tem aquele sexo acrobata, mas que não te impressiona…

Acho que o beijo é importante… e se o beijo bate… se joga… se não bate… mais um Martini, por favor… e vá dar uma volta. Se ele ou ela não te quer mais, não force a barra. O outro tem o direito de não te querer.

Não brigue, não ligue, não dê pití. Se a pessoa tá com dúvidas, problema dela, cabe a você esperar… ou não. Existe gente que precisa da ausência para querer a presença. O ser humano não é absoluto. Ele titubeia, tem dúvidas e medos, mas se a pessoa REALMENTE gostar, ela volta. Nada de drama. Que graça tem alguém do seu lado sob pressão? O legal é alguém que está com você, só por você. E vice-versa. Não fique com alguém por pena. Ou por medo da solidão. Nascemos sós. Morremos sós.

Nosso pensamento é nosso, não é compartilhado. E quando você acorda, a primeira impressão é sempre sua, seu olhar, seu pensamento. Tem gente que pula de um romance para o outro. Que medo é este de se ver só, na sua própria companhia? Gostar dói. Muitas vezes você vai sentir raiva, ciúmes, ódio, frustração… Faz parte. Você convive com outro ser, um outro mundo, um outro universo.

E nem sempre as coisas são como você gostaria que fosse… A pior coisa é gente que tem medo de se envolver. Se alguém vier com este papo, corra, afinal você não é terapeuta. Se não quer se envolver, namore uma planta. É mais previsível. Na vida e no amor, não temos garantias. Nem toda pessoa que te convida para sair é para casar. Nem todo beijo é para romancear. E nem todo sexo bom é para descartar… ou se apaixonar… ou se culpar…”

Carta para mim

Querido eu mesmo.

Faz um mês que não sei absolutamente nada dela, estava ansioso para escrever isso. Foi assim, do nada. Sim, me faz falta. Mas antes eu não tinha controle. Acordava, trabalhava ou fazia qualquer coisa e de repente me via vendo algo dela. Então, de repente, um dia, percebi que não fiz isso, deu saudade e não tive vontade de fazer. A vontade voltou, várias vezes, mas agora não era subconsciente e decidi não ceder aos meus desejos. Não muda muita coisa, não é um projeto de esquecimento. Acredito que a melhor forma de esquecer alguém é vivendo ao lado dela até cansar e passei muito longe disso. Só não sou mais tão escravo dos meus instintos.

É claro que eu queria saber qualquer coisa, porém, não indiretamente. Não quero saber só da sua vaidade, mensagens indecifráveis e trivialidades. Essas últimas me divertem, até, mas não neste contexto. Também não quero saber, dessa forma, dos sucessos e insucessos. Ela decidiu, de novo, que não tenho espaço na sua vida e com requintes de crueldade, pois sabia que essa incógnita permearia minha consciência. Afinal de contas, porque alguém faz de tudo para conseguir uma reconciliação para, logo, jogar tudo no lixo sem qualquer motivo aparente? Tenho minhas teorias: vingança, permissividade com fofocas ou uma confusão de sentimentos.

Aliás, eu sei que esteve confusa. Eu estive por muito tempo, lendo cada palavra, letra de música, vendo os sinais, vendo ser usada por uma psicopata, vi cheia de medo do futuro e vi se afastando de mim cada vez mais. Eu não podia fazer nada, se me aproximava, sufocava. Se ficava longe, estava sendo indiferente. Entretanto, eu só percebi que havia algo errado, de fato, quando tentou me ridicularizar publicamente. Mas não é alguém que você quer bem querendo seu mal, nem a distância, nem tampouco os motivos que me entristecem. Sim, a minha incompetência de não perceber o que estava acontecendo e que ela precisava de mim. Observei tudo e não soube fazer.

Não poderia remeter esta carta a mais ninguém, senão a mim mesmo. Qualquer pessoa não entenderia porque amo incondicionalmente alguém que falhou tantas e tantas vezes comigo e sequer consegue me responder. Porque eu quero a felicidade de alguém que não suporta ver a minha, que adora ver outras pessoas tentando me destruir. É que tampouco posso culpá-la por sua natureza. Toda minha praticidade cai por terra quando se trata da minha alma irmã, não existe nada imperdoável para ela.

Amor e utilidade não combinam e o mais perto que existe do amor, que não vê idade, sexo, horário, interesses é esse que tenho. Somos mais bonitos juntos. Ela é asa, sou corpo, sou a cor, ela o tom. Não nascemos para nos usar, simplesmente funcionamos. Ela é tão inútil, que não preciso dela nem mesmo para amá-la.

O que vem depois disso? Sei lá! Nada pior pode ser. Desde que me obrigou a voltar para sua vida até o dia em que consumou seu mais vil ato de ingratidão, eu não poderia ter dias melhores. Depois disso, nada foi igual. Nada bom é tão bom, nada é tão gostoso. Os dias passam rápido e eu mal consigo ver o tempo se esvaindo. Espero que esteja bem e que se de conta, em tempo, do que lhe faz mal de verdade. Não a tirei de um buraco para que se meta em outro.

Precisava defenestrar essas palavras de mim, quem sabe assim consiga tirar ou, ao menos, acomodar todas as outras vãs que ela me deixou? Fica bem.

Com carinho, você mesmo.

Semaninha

Domingo

– Oi, meu amor! Estava com saudades.

– Oi, bombom. Eu também estava!

– Só chamei para dizer um “oi” mesmo, tenho que dormir.

– Tão cedo?

– É, amanhã acordo cedo…

– Tá bom.

Segunda

– Oi, bombom. Sonhei contigo!

– O que sonhou?

– Foi meio louco.

– Entendi.

– Tô com vontade de te mimar hoje!

– Tá bom.

Terça

– Hummmmmm.

– Que foi?

– Nada.

– Tem certeza?

– Foi boa a conversa com a sua amiguinha?

– Ah, bombom! Nem falei com ela direito.

– Tá bom.

Quarta

– O que foi aquilo?

– Desculpa…

– Ciúmes?

– Não tenho ciúmes dele.

– O que foi aquilo, então?

– Não vai voltar a acontecer.

– Você tem que entender que…

– Ok, foi ciúmes.

– Tá bom.

Quinta

– Precisamos ter uma longa conversa.

– Quer café, bombom?

– Acho melhor a gente se afastar.

– Tá bom.

– Tá bom.

Sexta

– Foi fácil, né?

– O que foi fácil?

– Dizer “tá bom”, sem nem perguntar o motivo…

– Me pareceu óbvio.

– Fiquei triste porque você nem se importou.

– É isso que você pensa?

– É isso que você me passou.

– Eu – um minuto – não sei explicar.

– Tá bom.

Sábado

“Bom dia, bombom.

Escrevo esse bilhetinho só para dizer que sentirei sua falta. Não quero te fazer refém das milhares de palavras que fazem fila para sair da minha boca sempre que estou contigo. Não falta paixão, apenas vivo ainda meu próprio cativeiro. Eu confio nos teus motivos. Te quero muito bem, tá bom?”

Sempre à espera

Pode ser as crianças, o chão de terra, a perspectiva do alto dos meus 1,30m de altura, curioso. Fito o asfalto vazio nessa manhã de feriado e sei que nunca as coisas voltarão a ser como eram, como deviam ser, porque me acostumei que fossem, porque elas simplesmente começam e acabam. O que parece não acabar é essa esperança involuntária de que algo aconteça.

E as vezes acontece, nos cachinhos de uma normalista com uns dedinhos na frente da boca para esconder só um pouco o sorriso tímido, a mão também quase oculta pela manga comprida propositadamente superposta. Acontece, vez ou outra, com um par de ouvidos atentos e semblante empolgado escutando minhas ideias, projetos, implorando, com os olhos, que a inclua.

Tenta acontecer nas promessas de um futuro tranquilo, braços sempre prontos, vigília de cuidados, que finjo acreditar para não ser rude contra tanta gentileza, enquanto livre de brita e piche. O que terá pensado a garota de voz macia que esperava uma nova entrevista? Não, não posso me apegar a essas nuvens… Costumava olhar para o céu e imaginar que estava compartilhando as mesmas constelações. Eu estava lá, eu vi tudo, vi do meu jeito, vi o que eu precisava, não o que precisava.

Ah, meu coração! Como pudera obrigar-te abandonar a janela, à espera do desnublamento? Tens que entender que isso vai acontecer, todavia, não terá os amiguinhos com pés sujos brincando de pique e, tampouco, tua astrônoma favorita d’outro lado. É que não amamos pessoas, mas o tempo que passamos com elas. Então, vamos explorar novos momentos. Sei que também tem estrelas no mar, é pra lá que eu quero ir. Me avise quando estiver pronto, só não demora muito, estou quase indo sem ti.

Com raíz

Desert-flowerAchada no mar de areia, ela não se esconde, ela se acha perdida. E acha que nunca será encontrada.  Uma linda flor do deserto, com alma fria como a noite e coração cálido como o sol que lhe castiga, decerto, sem alguém que diga “quem faz o monge não é o hábito”. Implorando que passem mais perto, tentando avisar a quem interessar possa, como quisera ter a vida de uma rosa.

Afinal, elas estão em todas! Aniversários e bodas, poemas de amor, versos de música, na cor, na boca de uma argentina charmosa, na cultura, arte e estética, na mesa de um restaurante francês, na pele de uma prostituta formosa, na cama de dois amantes, no banho de uma rainha, no jardim de uma senhora bondosa, no filme preferido de um sujeito atraente.

Mas veja que triste, minha raridade, o quão vazia pode ser sua realidade.  Da multidão do canteiro à mão do florista, cortada em botão, lançada ao breve papel de protagonista, enquanto jaz compondo uma dúzia, esquecida depois da cena, escolhida a mais bela para ser deixada seca em um livro, conquistando o coração de uma virgem para desfrute de um biltre, jogada no lixo, trocada pela nova mais bonita.

A beleza está nos olhos de quem olha. E para quem você quer ser bela? Para os muitos que queiram te comprar sem espinhos numa loja ou para os poucos valentes que se arriscariam no deserto para vê-la? Se a solidão é nosso único destino, não queira ser rosa. Seja diferente, como uma poesia escrita em prosa.

Acho que você não tá aí, mas boa noite

Você se foi tão rápido quanto chegou naquele dia de abril, tomando a iniciativa de procurar no escuro, agarrar, conquistar e proteger. Medo não combina contigo e é só o que eu vejo. Esse orgulho é uma porta que nos separa, te tranca do lado de fora da casa sombria onde vivo. Separados, livre e preso. Perigoso e desinteressado de segurança. Frio e frio. Condenada à liberdade e condenado a ser liberto de ti.

Nunca me despedi tantas vezes de alguém e cada vez eu senti que era a última vez que te via. Talvez não seja essa, mas é assim que me sinto de novo. Me acuse de qualquer coisa e eu nem me importo se sou culpado ou não. Mas não me acuse de não ter tentado honrar cada palavra que eu disse. Como tentei com o “Não vamos” que repliquei para o “dessa vez não vamos deixar nada dar errado?”!

E o que fizeste de errado? Ou o que fiz eu? O que pode separar duas almas irmãs? Quantas outras portas existem? Como um frisson vira de repente um silêncio? São tantas perguntas e tão poucas respostas… Pobres de nós ateus que não acham um sentido banal para a vida. Seria tão bom poder ao menos ter uma explicação, ou só um “oi” que me deste desconhecido. Pudera eu inventar uma verdade alternativa, mas não consigo. Você me entende? Se eu não sei onde errei como posso ir em frente?

A vida segue? Claro. Vai seguir de qualquer maneira e porque, diabos, essa é a melhor? Imagino o abraço, a voz, o tempo juntos e só consigo pensar em como daria tudo para ser de novo um estranho. Não vou implorar que volte, mas deixo meu lado arrumado. Preciso de tão pouco… Não leve todas as chaves consigo, não deixe seu anjo.