Category: Poesia

Eclipse

Eu tive um sonho e era tão real
Em que o amor sobrepunha o mal
Do qual padeço e que quero vencer
A dor de amar e não poder te ter

Tinha uma caixa de fantasia
Era grande, mas estava vazia
O meu destino é triste sem você
E o céu azul começou a escurecer

A lua me tocava
Era fria e brutal
Mas me livrava
Da solidão total

Passei anos e eras
Com a companheira indesejada
Lutei contra o que tinha
E, como tu, morri na estrada

Virei sol e percebi
O meu erro cometido
O astro vil, desprezado
Era o meu amor querido

Te persegui e me perseguias
Mas não ocorreu o encontro esperado
Pois quando eu vinha
Você já havia ido

Quando acordei
Não acordei
E me vi assim
Sem te ver

Escreve-me

Escreve-me! Ainda que seja só
Uma palavra, uma palavra apenas,
Suave como o teu nome e casta
Como um perfume casto d’açucenas!

Escreve-me! Há tanto, há tanto tempo
Que te não vejo, amor! Meu coração
Morreu já, e no mundo aos pobres mortos
Ninguém nega uma frase d’oração!

“Amo-te!” Cinco letras pequeninas,
Folhas leves e tenras de boninas,
Um poema d’amor e felicidade!

Não queres mandar-me esta palavra apenas?
Olha, manda então… brandas… serenas…
Cinco pétalas roxas de saudade…

Florbela Espanca

Soneto da tarde

Linda sereia morena
Que todas as tardes se banha
Nas águas do mar, logo se assanha
Quando me vê e acena

De longe contemplo bem
A bela sereia nua
Que com toda lábia sua
Me faz ao mar refém

Não resisto, vou em frente
Hesita e me fisga, resolve
Tal qual peixe em anzol

Me usa e de repente
No fim da tarde me devolve
Antes do pôr-do-sol

Soneto do pé de acerola

Oh! Árvore ingrata
Da qual cuidei com carinho
Curei todos seus males
E me feres com espinho

Quando te espero resposta
Seus frutos para meu vinho
Só tenho folhas no chão
Pé egoísta e mesquinho

Cortar-te-ei todos teus galhos
Secar, irei deixá-los
Para fogo eu atear

É isso mesmo, mulher, que farei
Para não mais prometer
Pomos e depois não os dar