Corofobia

Aí você tá na pista, tá de boa, tá tranquilo. Vê outra pessoa, só na dela. Pensa “porque não? Vamos lá, vamos pro ofício”. Tira pra dançar, ela aceita, nem se faz de difícil. “Porque não? Bora ver”. Se aproximam, com um meio sorriso que é o começo de um inteiro. E não é que essa mina tem jeito? E não é que esse cara tem ginga? Caboclo itinerante, carioca gringa. E o que era samba sem cerimônia vira xote. Dança direito, palma com palma, pendurada no cangote, no ritmo do peito, no calor da alma.

É bonito, é incrível, é ótimo. “Opa, pisei no seu pé”. “Tudo bem! Acontece! Já passa!” A coisa vai ficando séria, os dois passos já são três, é valsa. Olha pro lado tem uma pequena interessante. Teu par te puxa, esquece a outra num instante. Está tão bom, “nunca vi ninguém mexer assim, quero isso pra sempre”, que o tempo voa e, no fim, nem os dois e nenhum sente.

Que a terna noite esfria em madrugada, que um par de pés se rende à monotonia, que o seu repertório já não provoca batucada no coração que, com o teu, perdeu a sincronia. Tenta arrumar, mas tem algo diferente. “Não é você, sou eu! Vamos dar um tempo”, diz, pra piorar. Na sua mente “fodeu! Não tenho argumento”. Dois pra “lás” opostos.  Se afastam, com um meio sorriso que é o fim de um inteiro.

Vem outros sons, outros pares, outros desastres e, com eles, a certeza inútil de que eram bons, que podiam ser melhores. No fim, a gente tem a ilusão de que poderia ter feito de outro jeito mesmo sabendo que não tinha como saber, de cada passo, seu efeito. Resta apenas a esperança de que os erros virem acertos numa nova dança.