Carta para mim

Querido eu mesmo.

Faz um mês que não sei absolutamente nada dela, estava ansioso para escrever isso. Foi assim, do nada. Sim, me faz falta. Mas antes eu não tinha controle. Acordava, trabalhava ou fazia qualquer coisa e de repente me via vendo algo dela. Então, de repente, um dia, percebi que não fiz isso, deu saudade e não tive vontade de fazer. A vontade voltou, várias vezes, mas agora não era subconsciente e decidi não ceder aos meus desejos. Não muda muita coisa, não é um projeto de esquecimento. Acredito que a melhor forma de esquecer alguém é vivendo ao lado dela até cansar e passei muito longe disso. Só não sou mais tão escravo dos meus instintos.

É claro que eu queria saber qualquer coisa, porém, não indiretamente. Não quero saber só da sua vaidade, mensagens indecifráveis e trivialidades. Essas últimas me divertem, até, mas não neste contexto. Também não quero saber, dessa forma, dos sucessos e insucessos. Ela decidiu, de novo, que não tenho espaço na sua vida e com requintes de crueldade, pois sabia que essa incógnita permearia minha consciência. Afinal de contas, porque alguém faz de tudo para conseguir uma reconciliação para, logo, jogar tudo no lixo sem qualquer motivo aparente? Tenho minhas teorias: vingança, permissividade com fofocas ou uma confusão de sentimentos.

Aliás, eu sei que esteve confusa. Eu estive por muito tempo, lendo cada palavra, letra de música, vendo os sinais, vendo ser usada por uma psicopata, vi cheia de medo do futuro e vi se afastando de mim cada vez mais. Eu não podia fazer nada, se me aproximava, sufocava. Se ficava longe, estava sendo indiferente. Entretanto, eu só percebi que havia algo errado, de fato, quando tentou me ridicularizar publicamente. Mas não é alguém que você quer bem querendo seu mal, nem a distância, nem tampouco os motivos que me entristecem. Sim, a minha incompetência de não perceber o que estava acontecendo e que ela precisava de mim. Observei tudo e não soube fazer.

Não poderia remeter esta carta a mais ninguém, senão a mim mesmo. Qualquer pessoa não entenderia porque amo incondicionalmente alguém que falhou tantas e tantas vezes comigo e sequer consegue me responder. Porque eu quero a felicidade de alguém que não suporta ver a minha, que adora ver outras pessoas tentando me destruir. É que tampouco posso culpá-la por sua natureza. Toda minha praticidade cai por terra quando se trata da minha alma irmã, não existe nada imperdoável para ela.

Amor e utilidade não combinam e o mais perto que existe do amor, que não vê idade, sexo, horário, interesses é esse que tenho. Somos mais bonitos juntos. Ela é asa, sou corpo, sou a cor, ela o tom. Não nascemos para nos usar, simplesmente funcionamos. Ela é tão inútil, que não preciso dela nem mesmo para amá-la.

O que vem depois disso? Sei lá! Nada pior pode ser. Desde que me obrigou a voltar para sua vida até o dia em que consumou seu mais vil ato de ingratidão, eu não poderia ter dias melhores. Depois disso, nada foi igual. Nada bom é tão bom, nada é tão gostoso. Os dias passam rápido e eu mal consigo ver o tempo se esvaindo. Espero que esteja bem e que se de conta, em tempo, do que lhe faz mal de verdade. Não a tirei de um buraco para que se meta em outro.

Precisava defenestrar essas palavras de mim, quem sabe assim consiga tirar ou, ao menos, acomodar todas as outras vãs que ela me deixou? Fica bem.

Com carinho, você mesmo.