CAPITULO II

Paris – 20:00h

             Estacionei em frente ao número 42, do outro lado daquela pequena rua de pedras, no subúrbio de Paris. Ajustei o relógio no pulso e, aproveitando um momentâneo feixe de luz de um farol alheio, vi que era, exatamente, 20:00. Nem sempre fora assim, pontual, mas 5 anos trabalhando no escritório em Londres me havia deixado mais pragmático e com um certo incômodo ao dirigir pelo lado direito. Curvei-me, tentando encontrar pela janela algum sinal de Ana no segundo andar do sobrado que, eu via agora, estava fechado e com as luzes apagadas. Antes que pudesse estranhar, ouvi a porta do carro se fechando delicadamente. Virei-me e, na penumbra, pude ver apenas um refletir nos olhos e lábios que se aproximaram dos meus para roubar-me um breve beijo.

Sem tempo para que meu desconserto pudesse ser notado, ela argumentou com ar de inocência:

– Temos que parecer um casal comum, certo?

– Certo. – Respondi, depois de longos 2 segundos, e desconversei – Como foi de viagem?

– Um saco! – Disse, com entonação de tédio, enquanto ajeitava o discreto decote antes de olhar novamente para mim com um meio sorriso – Odeio esperar e a neve em Berlim atrasou o meu voo.

            Consenti com a cabeça à medida que admirava o pouco que podia ver. Ela agora apoiara o braço esquerdo no encosto da poltrona e, sobre este, a cabeça. Não tardou em me acordar de meus delírios:

– Disse que não gosto de esperar…

– Claro… – voltando a me concentrar no trabalho e dando a partida – Temos tempo, não se preocupe.

            Sem responder, continuou na mesma posição, agora, fitando o nada, à frente. Arranquei paulatinamente em direção à próxima rua, a fim de poder, em alguns instantes de observação, descobrir qualquer coisa acerca da minha nova parceira. Sua ficha não me havia chamado muito a atenção. O codinome, Caramel Candy, fazia jus à sua cor de pele. Hispano-germânica, ela parecia ter uma constante disputa interna entre a calidez e a sobriedade. Agora podia vê-la bem, cabelos curtos, levemente encaracolados, olhos cor de mel. O sobretudo, já despido, dobrado escondendo as pernas que eu ansiava saber se compunham bem com o belo colo. Era meu primeiro serviço de campo em anos e, de repente, eu me via desafiado a uma nova missão, conhecê-la além do disfarce.

            Ficamos em silêncio por alguns instantes, este, certamente, muito mais incômodo para mim. Ao chegarmos na Avenue Champs Elysées ela esboçou um novo sorriso, diferente. Aproveitei para indicar nosso itinerário:

– Vamos jantar antes de ir à festa.

– Tudo bem. – respondeu, sem aparentar muito interesse.

– É um restaurante bem tradicional, você vai gostar. – Continuei, atento ao trânsito, até procurar uma resposta em seu rosto, sem sucesso. – Ana?

– Porque um Lexus?

– Temos que parecer um casal comum, certo?

            Ela torceu os lábios, desapontada. Obviamente esperava por um carro mais agressivo do que ecológico. Enquanto entregava as chaves ao manobrista, que já havia obsequiado abrir-lhe a porta, notei seu discreto, porém curto, vestido negro e advirto:

– É inverno… Porque não leva o sobretudo?

– Não se importe. – Responde, de forma amável.

            O lugar era bem suntuoso, assim como o público que ali frequentava. Dirigimos-nos ao maître, que a cumprimentou com intimidade, para minha surpresa:

– Bonne nuit, mademoiselle Liebert.

            Enquanto ela fazia-lhe agrados verbais, como antigos conhecidos, pensei na minha tolice. De certa forma, quisera impressioná-la. Definitivamente, me faltava a prática de outros tempos. Já na mesa, me permiti uma nova curiosidade fora do nosso objetivo:

– Velho amigo?

– Do meu pai. Ele sempre me trazia aqui.

            Desviei para assuntos impessoais, ao passo que pedimos e esperamos a comida. Quando chegou, nos calamos. Eu a observava, mais que isso, de uma forma absurda, estava encantado com os seus trejeitos. Vi que olhava com frequência para certa mesa. Virei-me, para ver uma loira e uma ruiva, muito bonitas, que conversavam efusivamente. Interpelei:

– Você poderia ser mais discreta…

– Qual o problema? – Contesta.

– Não foi para isso que viemos aqui. – Respondo, sem querer dizer que, na verdade, me incomodava a atenção maior que dava a elas do que a mim.

            Concordou com a cabeça, sem mostrar grande descontentamento. Tentei ver pelo reflexo da taça de vinho a mesa vizinha e tive a impressão de que a ruiva teria se decepcionado com a minha intervenção. Concentrei-me novamente na comida, até realizar que Ana me olhava fixamente. Era o que eu havia esperado desde aquele beijo de apresentação, agora, entretanto, me assustei:

– O que foi?

– Me diga,  que há de tão importante no que vamos fazer hoje.

– Você não foi paga para perguntar, apenas faça a tua parte. – Respondi secamente.

– Claro. Mas talvez eu precise de mais informações para fazer bem a minha parte…

– Aqui não é o lugar mais adequado para falarmos disto. – Inclinei-me para falar-lhe próximo ao ouvido, um pouco irritado.

– Tudo bem, mon cher – Falou-me à mesma distância, em tom tanto desafiador, quanto sedutor – Me avise quando for apropriado contar porque uma agência de assassinos precisa dos serviços de uma ladra profissional.

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