Pedaços

O tempo é um grande escultor que usa nossas vidas. Nascemos uma coisa mais ou menos parecida com um  bloco de matéria essencial e cada indivíduo que mistura seu caminho ao nosso tira ou deixa algum pedaço em nós. Começando pela educação doméstica, passando pela escola, amigos e colegas, ídolos, pessoa que te pergunta as horas na praia e agradece com um sorriso e por aí vai, nossa obra de arte vai ganhando personalidade diferente daquele projeto de paralelepípedo inicial.

E como arte, não responde se é bonita ou feia, certa ou errada. Somos um pouco de nós e muito do que fizeram de nós. Algumas pessoas, entretanto, levam um pedaço muito grande da nossa matéria essencial. Tão grande que as vezes perdemos o brilho. Meu pedaço está andando por aí, não sei aonde, não sei como. Nos resta aprender a viver com esse buraco que pode ou não ser preenchido, jamais com sua essência, que foi levada.

Alguém sem pernas pode ter próteses ou não e viver muito bem sem elas. Mas ainda assim, será uma pessoa sem pernas. Esse pedaço que nos levam nunca mais será nosso. Isso não quer dizer que não podemos ser felizes, ao contrário, é uma das razões que nos tornam únicos. Não somos incompletos, apenas mudamos. E com pedacinhos se quebrando e se cravando a dor é quase que inevitável. Me arrisco a dizer que quem nunca sentiu um vazio talvez não tenha tido uma grande felicidade ainda e quem se esconde da dor está perdendo a chance de virar uma obra prima.

Tento guardar cada partícula que me deixaram. Contudo, nem sempre ficam com o que nos levaram e, por vezes, permitem que partes nossas se tornem inúteis. Tomara eu não ver algum dia meus pedaços no lixo ou machucando alguém. Quero crer que eles fazem parte de peças valiosas. Espero que a dona da minha maior porção de matéria perdida a mantenha, seja feliz com ela e, talvez um dia, eu poderei rever a criação do tempo e expressar com admiração: magnífica!