Nenhuma última carta

Algumas pessoas são orgulhosas. Eu sou só antissocial mesmo. Juntando isso à minha obsessividade de deixar tudo em pratos limpos, portas fechadas, ferro de passar desligado e por aí vai, escrever cartas é uma ótima solução. Vivo um dilema de uma opção só, onde o que angustia é a consciência da ilusão de haver outra. A necessidade de esclarecer algumas coisas é razoável, a vontade é pequena, a utilidade é duvidosa.

Quando penso em pessoas e seus comportamentos não consigo dissociá-los de biologia e evolução. É uma verdade dura, que machuca. Escolhi viver assim, entretanto. E sei que a rejeição é natural, não é uma escolha. Como um corpo que não aceita o órgão alienígena, alguém não consegue te aceitar simplesmente porque sua natureza não lhe permite. Isso também acontece comigo. Qualquer coisa dita ou explicada seria um remédio de célere efeito.

Sei que muitas pontas ficaram soltas e isso só pode gerar alguma mágoa sobre fatos falsos. Mas é só um pouco mais. E daqui há 15 anos não entenderemos como pudemos ser tão mesquinhos, sem pensar em todo o processo de cicatrização. O desolador é entender que, ainda que não tenham te derrubado por querer, não recebeste os primeiros socorros. Se não há ressentimentos, apenas incredulidade, falta ânimo e esperança.

Uma única carta nunca poderia dizer tudo o que sinto, tudo o que perdi, tudo o que ganhei e espero. Faltaria espaço e lembrança. Sempre seria necessária uma nova última carta.