A desejada habilidade de ser idiota

Esse ano se apresentaram para mim todos os amores que tive na vida. Todos! Da segunda série do ensino fundamental ao ano passado. Vinte anos de amores, todos juntos, todos jogando na minha cara as minhas incapacidades, minha sorte, meu gosto raro. E, em meio a tantos fantasmas, eis que me apaixono de novo, diferente, mais forte. Um amor que tentei evitar a todo custo. E que me rendi com poucas horas de uma conversa. Eu evitei esse amor não nela, mas em todas as pessoas que deixei pelo caminho, pelas quais poderia me apaixonar facilmente. Mas era ela. A mudança da minha vida, do meu destino. Eu não pensei assim, ela se apresentou assim. Ela é assim.

Eu podia ter dado certo com muita gente, podia mesmo. De fato, dei com algumas delas por tempo o bastante para acharem que não funcionaria mais e, ao mesmo tempo, suficiente para me dizerem, agora, que estavam erradas. Não me orgulho de causar isso em algumas pessoas, arrependimento. Poderia ser reconfortante alguém dizer “eu não soube dar valor ao que tinha”, se a perda não tivesse sido tão grande. Eu não quero mais pessoas arrependidas por isso. Agora mesmo, prefiro que se arrependam por eu ter sido um idiota, do que por ter sido “bom”. Deve ser por isso que existe tanta gente canalha. Um arrependimento justo não machuca.

Quem nunca se sentiu aliviado por não ser o único em uma situação desesperadora? Pode ser não ter estudado para uma prova, deixado de entregar um trabalho, ter chegado atrasado ou esquecido um documento essencial, exame de direção ou de sangue mesmo. Você fica nervoso pela sua patetice, mas relaxa quando vê que não é o único lascado. Acho que é isso que acontece na maioria dos relacionamentos. Procura-se alguém para subjugar. Para não ser solitário na mediocridade.

Conheci um casal na sua solteirice. Ele não era lá muito bonito, mas tinha um corpo muito bem trabalhado, resultado de anos de dedicação. Ela parava o trânsito, não havia onde passar despercebida. Se casaram informalmente e ele foi proibido de continuar na academia. Lembro dele me contando isso com a certeza de que o embargo demoraria algumas semanas. Anos se passaram e as vezes vejo o belo casal de gordinhos ainda juntos, veja que maravilha! Será esse o segredo da felicidade?

Eu duvido muito. Aliás, tenho certeza que não. Comum é o desabafo de desquitados, principalmente mulheres, “quanto tempo perdi na minha vida”. Certamente ouviria isso do casal amigo se eles não estivessem mais juntos. Ser feliz não é ter alguém para ser igualmente inapto, como você.

Uma relação saudável não deve ter controle, respeito sim. Confiar que não te trairá sem que seja necessário fiscalizar o celular, e-mails e redes sociais. É o que sempre fiz, respeitar e dar espaço. A insegurança vem de brinde, não devia. Espero, sinceramente, que meu último amor não se arrependa. Espero que se algum dia aconteça, não me diga. Que saiba que isso fere mais do que contenta, pelo menos para pessoas não tão vaidosas.

Imagem retirada de http://lia1031.wordpress.com/2006/08/04/the-idiots-guide-for-looking-stupidfor-dummies/
Aparentando ser um idiota para leigos

Como ser ruim o suficiente para não ser abandonado é a grande equação a se descobrir. Tal como toda habilidade, alguns já nascem, outros adquirem e outros tem dificuldades para aprender. Me incluo nessa última lista. Se tivesse uma faculdade para isso, eu faria da graduação ao PhD. Pois parece que a única chance de ser feliz nessa vida é não se importar com quem você deveria, ou melhor, querer não ter uma pessoa com quem se importar.